desacontecer

Acordou, ainda na madrugada, como quem desperta de um sonho, de um lampejo mágico. A realidade era um dia que não havia se tornado, uma manhã quase noite e uma noite quase manhã. Tentou retornar ao sonho, mas todos os caminhos que se apresentavam a ele partiam em direção oposta. Falhando miseravelmente, permeou seus olhos de realidade, sem levantar da cama. Por horas, permaneceu ali, diante dos espelhos confusos de seus pensamentos. Pela fina fresta das cortinas que encobriam à janela, percebeu a luz do sol aquecendo a voz do pássaro que adentrava aos cantos celestiais o espaço vazio de seu quarto. Amanheceu. Preguiçoso, caminhou para o banho, como de costume. Aparentemente, era um dia normal em sua vida. Desejou bom dia para tua mãe, que alegremente o respondeu com um beijo na testa. Estava feliz, de maneira estranha. Tomou o café da manhã enquanto conversava silenciosamente com a voz que partia do coração à mente. Ao sair para o trabalho, pelo caminho, tudo parecia normal, tudo estava devidamente igual, as pessoas eram as mesmas, o caminho era o mesmo, mas ele… ele não, algo nele parecia haver partido.

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esperança do adeus

À tarde, anunciada pelos raios luminosamente alaranjados no céu, chegava a seu fim. Os pássaros, livres e despretensiosos, prestavam homenagem ao dia que se despedia com louvor. Jacob, um jovem cuja alma pertence aos pequenos deleites dos prazeres genuínos, das quais somente os fragilizados corações que estimam a grandeza contida no simples podem sentir, envolto de uma comoção que tomava-o do âmago, onde, do céu ao inferno, não se pode reconhecer tanta transparência em um homem, sentou-se meio aos arbustos para contemplar o que lhe tocava o olhar com a mesma prudência e entusiasmo que Brigitte, uma pequena moça, branda e ao mesmo tempo rígida, com o olhar que cintila esperança nos mais rigorosos horizontes, tacava-o coração. Incumbido de um forte sentimento, desceu-lhe aos olhos uma lágrima. Estava feliz, mas sozinho. A solidão o assolava tanto quanto um carcereiro aos presos. Após o vento secar seu rosto, deixando ainda em sua boca um sabor aprazível aos homens apaixonados, declamou aos suspiros e sussurros, sentimentos lavrados em formas de palavras, com a vã esperança de que elas a alcançasse, as tocasse, as cobrisse com o seu manto sagrado. Perdido na paisagem pueril e visceral que tomava-o a cabeça ao se deitar, esqueceu-se do tempo. À noite, estendendo seu corpo ao céu, tomava conta do alaranjado que outrora encontrara-se presente, deixando para trás o vento que a acompanhava em seu devir. Jacob, após se entregar bondosa e gratuitamente ao encanto daquela tarde, percebeu que para a eternidade basta o coração. “A eternidade não existe senão pelo tempo que o coração ama”, pensou ele acompanhado de um pássaro perdido e esperançoso que cantava enquanto seus olhos perdidos admiravam o brilho da noite. Antes de ir-se embora, enterrou aos pés de uma videira próxima um papel onde talhou com a mesma veemência e sutileza as palavras que o acompanhava em pensamento, a fim de torná-las os mais belos frutos. Em seguida, tomou rumo da rua, passando pela praça Paris, destino dos casais enobrecidos pelo ardor de suas paixões. Nessa caminhada, costurava, a fino talho, junto aos passos transeuntes, a imagem da bela Brigitte meio àquela paisagem verde e campestre contida no âmago do grande centro urbano. A imagem, que a desenhava virtuosamente em um de seus vestidos, transmitia para Jacob ares de um ser celestial, como a de uma borboleta vivendo a delicadeza de seu primeiro voo, passeando por entre às árvores e os casais em sua mais pura, divina e preciosa demonstração de vida. Alegre, novamente correu pelo seu rosto uma lágrima, com um vigor capaz de arrebatar as chamar do inferno. Ao sair da praça, no auge da noite, compreendeu que a eternidade existe nos momentos que se deixa guiar-se pelas fissuras existentes no coração. Assim como aquela tarde, onde o vento soprava levemente a esperança do futuro em seu rosto, enquanto no céu despedia-se em cores fortes uma presença que lhe consumia – sem extinguir – a alma.

metáfora do vento

“Ela traz no suspiro as metáforas do vento”, pensou ele enquanto queimava lentamente o cigarro entre seus lábios. A chuva caía, fina e majestosa, frágil e viril, ao lado de sua janela. Por um pequeno instante, à qual se emprega o coração a serviço da eternidade, devotado por uma paixão que o purificava com o ardor de um fogo que purifica o ouro, deu-se a possibilidade de senti-la, aproximá-la, retê-la, dando ao mundo um profundo e esperançoso suspiro que esperava alcançá-la através das fronteiras impostas pelo horizonte. Apanhado pela alegria de um pássaro que canta ainda no auge da madrugada, perecia no mais dócil caminho que escolherá percorrer seu coração. Em seus olhos, pura e ingênua, despida de qualquer tipo de polidez, nasceu uma lágrima com um vigor capaz de dar vida ao deserto, lágrima essa que o adoçava a boca, como o mais belo poema de amor que pudera declamar: o nome dela.

todo amor em nosso amor se encerra

A seu irmão, confessava com o ardor de uma criança que se diverte com seu brinquedo favorito, a lembrança da moça cujo seu coração prostrava-se com a obediência de um servo aos pedidos do rei. Dizia ele, tomando por uma emoção que se iguala ao êxito de uma vitória, sobre os seus mais sinceros encantos. Quando o diziam estar apaixonado, negava veementemente, sem conseguir ocultar em seu olhar a presença que àquela moça havia alcançado na camada mais profunda e, pensava ele, inalcançável do seu coração. Percorria, da loucura à lucidez, um caminho forjado pela imagem dela, devidamente talhada, moldada e esculpida, desenhada e consagrada, em sua mente; assim como o outono que, entre um acontecimento e outro, se manifesta exatamente igual em qualquer coração. Empregava, com fervor e generosidade, fidelidade a cada palavra que buscava traduzir em sua conversa onde, única e exclusivamente, a trazia presente. Após um rico e demorado suspiro, no qual se demonstra mais esperança que cansaço, terminou com um verso seu culto de exaltação a um amor que reculsava-se acreditar amar: “todo amor em nosso amor se encerra.”

mesa de bar

85e6998bc103e1ce3bf43fa6744cfb0dA luz amarelada clareava com fraqueza o pequeno bar no qual se encontrava; sozinho, à mesa, migrava pelas lembranças de um amor a outro, apesar de que poucas vezes tivera vivido ou experimentado a vivacidade de um amor do qual a verdade estivesse arraigada a alma, quiçá de uma paixão febril, embora fosse um homem dotado de sentimentos. Naquele ambiente cuja alma encontrava-se despida diante de seus olhos, pairava no ar, acompanhada pela melodia que ao fundo estremecia aos golpes seu coração, a profunda solidão de um poeta não lido ou ouvido em suas declamações mais profundas. Ao longe, correra em sua mente como a nascente de um rio, os ditos de Gabriel García Márquez em Memórias de Minhas Putas Tristes: “o sexo é o consolo que a gente encontra quando o amor não nos alcança”, percebendo-se um pária dentro do próprio coração. No espelho que o refletia entre as garrafas vazias e os cigarros queimados, naquela mesa de bar, turista de suas resignadas lembranças, começara atravessar o deserto entre o coração e a alma, na companhia da solidão que valseava profunda e incansávelmente através de seu corpo, fazendo-o compreender a diferença entre o real e o suposto, levando-o, por fim, a consciência de que, nada que o vivera, mesmo que tenha sido devoto ao sentimento, não passara de suposição, resultado de uma falsa lucidez. Envolvia-se em relações sem amor por puro capricho do prazer, levando-se assim a prostituição, como diria Osho. Tinha sede, mas bebia lama. Estivera com mulheres que, ao fundo, o deixaram marcas tão incuráveis quanto uma pegada na areia esquecida ao vento da manhã, se bem que, uma, luminosa como uma estrela, de olhos escuros e cintilantes, pele ousadamente branca e modelada, com cabelos que mal cobriam o pescoço, o gerava o brilho que vagarosamente ocupava o olhar com esperança e, na molesta comoção que o encontrava dentro de si, prendeu-se ao mais próximo do que conhecera do amor, entregando-se, ainda que somente por uma noite, naquela mesa de bar, a emoção mais real que o vivera.

eterno é o sempre que o agora leva

Antes de conhecê-la nada pesava nem tinha nome, tudo era do vazio que me obtinha; vagava pelos desertos das ruas da cidade como um andarilho a busca de destino, um lugar onde poderia dar-me o devido descanso. Sentia-me sozinho e, de fato, o estava, quando, certo dia, embrulhada pela noite, ela se apresentou como um presente, uma direção em minha vida – antes mesmo que isto se tornasse perceptível, o que muito em breve viria a ser. Não sei como explicar, creio que as palavras não alcancem com precisão o que diz meu coração, mas vou tentar. Penso que tenha sido o olhar, tão bonito e tão marcante a ponto de se tornar à janela onde se debruça a melhor parte que há em mim. Pode ter sido o sorriso, largo e sincero, desenhado às margens da perfeição, ou foi o jeito, tão solta, leve, como quem carrega no peito parte do infinito. Na verdade, foi o seu abraço, tão forte, tão bom, tão imenso que me fez perder a noção de mim. Vejo sua imagem dançando na minha mente desde que acordo até a hora de dormir. O que isso significa? Sabe me dizer? Será que nos vê também? Não sei mais o que escrever para explicar o que sinto por você, moça. Como explicar o que nem eu entendo? É tudo meio estranho desde que a conheci, não estou me reconhecendo. Não sei mais o que estou sentindo, não sei mais o que estou dizendo, não sei. Mas esteja por perto quando eu descobrir.

Aqui torno eterno o sempre que o agora me leva, a memória que me resta, o silêncio de tudo o que não a disse.