amar é ser humano aos pés de Deus

O amor se cumpre pela alma, vivê-lo exige um profundo mergulho no centro da existência. Não há nada de belo no amor, senão a coragem de exercê-lo, sendo assim uma aliança feita não entre dois corpos, o compromisso está para além do físico, a aparência do amor não é a imagem que se tem dele, alegre, belo, divino, eterno, entretanto, deve-se reconhecer que o que há de mais próximo de divino no homem é a capacidade que tem para amar. Para Erich Fromm, o amor é uma expressão da fé, seguindo esse raciocínio, amar é ser humano aos pés de Deus, onde se deposita a esperança no incerto, sendo assim, um desafio constante. No amor romântico é experimentado um simples e fugaz entusiamos, transformando toda cor em arte e toda flor em jardim. Amar é sangrar-se, remete-se ao sacrifício exigido além da carne. Pensando desta forma, o amor não está a disposição do desejo; mas da coragem, não do santo; mas da santidade. Para Carl Gustav Jung,  amor é como Deus: ambos só se oferecem a seus serviçais mais corajosos, logo, é um esforço, um poder e uma excelência de um para com o outro de realizar-se, construindo-se e desmoronando-se, por inteiro, como exige amar e ser amado – compondo assim o privilégio e o castigo de quem o vive. O amor está onde cabe mais de duas almas, aos pés de Deus.

O encontro (Parte I)

A cortina filtrava a luz do sol que entrava pela janela e, pouco a pouco, corria pelo espaço vazio de cada cômodo da casa aquecendo a sombra que ali ocupava. Peguei um cigarro em minha carteira, revirei o jornal a fim de uma boa nova; como de costume, mas nada me era novo, entretanto, tudo me era estranho. Ainda com o jornal em mãos, pensei na solidão angustiante que alguns de nós temos de atravessar, tal como a luz que outrora corria, aquecia e obliterava a sombra da noite que permanecia impregnada nas paredes e em todo resto da casa. Neste instante, percebi-me no umbral de um abismo com queda para o céu, a morte me parecia um bem divino, então dei-me fuga deste pensamento. Nos minutos seguintes recebi uma ligação, ao atendê-la me pareceu ser um trote, o silêncio veio-me como resposta e então, depois de alguns segundos, estando prestes a desligar, ouvi, bem distante, chamarem pelo meu nome: – Franz! Franz, está aí? Alô! Franz! – A princípio pensei que era uma ligação cuja finalidade fosse me irritar! – disse secamente. Então dei um breve sorriso, cortando a acidez antes postas por minhas palavras. – Quem deseja? – perguntei-lhe vagarosamente. – May, sua antiga colega de classe! – me disse com fervor. – A que devo por espontânea ligação? – perguntei com alto tom de curiosidade. – Estou de volta à cidade, não há nenhum conhecido, tudo está muito novo para minha visão anacrônica, gostaria de estar com alguém conhecido. Sorriu enquanto falava, trazendo à tona uma pequena e implícita vergonha em sua respiração. – Que tal um café? – lhe disse. – Okay! Na rua da Misericórdia, na rua da Misericórdia numero nove, às 19 horas. – ela completou – Até lá! Desliguei o telefone e voltei para um mundo que minutos antes havia abandonado ao soar do telefone, repetidamente estava de frente para um abismo que me engolia de dentro para dentro. Ansioso pelo encontro, porém com uma curiosidade que me derruía até os ossos, mastigava minhas extremidades. Ainda surpreso, encontrei na voz suave dela uma memória familiar que, de súbito, me salvou novamente do ádito e estreito espaço onde me encontrava. Pouco a pouco remontava-se seu semblante em minha cabeça, como peças que faltavam para completar o tempo, vagarosamente ela caminha pela minha mente com o impacto de uma folha que pesa o vento em sua queda. “May! May! May! Lembro-me repentinamente, há anos não a via, me pergunto se ainda é moça com fartos anéis de cabelos e pele com pequenas sardas com tom de ferrugem espalhadas pelo seu rosto”, pensei enquanto o dia corria com o intuito de logo se tornar tarde. Horas se passaram e a luz que outrora ganhava espaço o perdia com a mesma rapidez que o fizera antes – era à tarde dando a si o presente de ser. Queria não chegar atrasado, então me arrumei algumas horas antes, peguei minha carteira e tudo que me era necessário e fui em direção à rua. Uma brisa soprava enquanto caminhava pela rua em direção à parada do ônibus, havia algumas pessoas pelo caminho, algumas gentilmente me cumprimentavam e, outras, passavam por mim como se negassem minha presença onde os mesmos se encontravam. Quando cheguei ao ponto de parada, guardava em mim um cansaço; não físico, interno, então devidamente sentei no banco de espera onde permaneci por alguns minutos, mas não o fiz até que chegasse minha condução. Resolvi então fazer o caminho até o local marcado, não era muito distante de onde me encontrava, então fui andando, enquanto à tarde mergulhava inteiramente na noite diante dos meus olhos. Há poucos instantes antes das 19 horas, chego ao local marcado, uma pequena cafeteria chamada En Passant Café, sento-me bem a frente da entrada e espero morosamente; durante a espera, olho ao redor e, no instante ao qual fazia uma agradável observação do local recebo uma ligação. Era May, buscando explicar-se por seu atraso: – Alô! – eu disse, ainda observando à minha volta. – Franz, estou a caminho! Peço perdão pela irritante demora! – disse May buscando aliviar-se pelo pequeno atraso. – Não se preocupe! Estou a te esperar, gosto da rica paisagem que me oferece esse local. Estou ansioso para dividir essa boa sensação com você! – eu disse, com certo veemência. – Acabei de pegar a condução! Terei de desligar, em alguns minutos nos encontramos! Até breve! – disse rapidamente antes de acomodar-se dentro da condução; e logo em seguida o fez, como prometido. Aos poucos as mesas a volta foram sendo ocupadas, casais, amigos, famílias, quando percebo vindo em minha direção uma mulher de média estatura, com uma bandana presa aos cabelos, trajando um vestido que trazia consigo uma leveza celestial. Era May, diferente da memória empoeirada que renasceu horas antes para mim. Levantei-me de minha mesa e a esperei cruzar a rua que ligava a cafeteria ao resto da cidade, alguns metros ainda distante ela me sorriu zelosamente, dizendo ao se aproximar: – Aqui realmente guarda uma ótima vista! – Olhou com súbita euforia para o nada. – Bom.. Estou feliz que tenha aceitado a me encontrar, há anos estou fora e não havia ou há nenhum outro rosto familiar senão o teu. – terminou explicando-se. – Para ser sincero, achei demasiado estranho tal convite, mas não o poderia recusar, a princípio imergi em curiosidade… Ainda estou! – observei-a ao terminar de falar. Pairou um silêncio profundamente agradável no ar, não foi como voltar para casa, havia algo mais, talvez pela noite estrelada, pela brisa que soprava em minha direção o cheiro de outono que emanava de sua pele e me abraçava internamente. – Ora, que coisa! – murmurou ela, quebrando o silêncio. – Você ainda não é de falar muito, não é mesmo? – Não muito! – completei com um sorriso de satisfação – Mas ainda não decidi se isso é meu pior defeito ou minha melhor qualidade, terminei sorrindo. Presumindo que estivesse cansada pela viagem que fizera até ali; convidei-a para sentar, logo o fez, despretensiosa como uma criança, pegou o cardápio em suas mãos e correu sua visão pelas apresentações nele anunciadas. – Receio que uma bebida gelada venha a ser melhor que um café nesse horário da noite – disse May. Apenas concordei sem pronunciar uma palavra sequer. May gesticulou cortesmente para o garçom que antes havia passado por nós, um pequeno jovem, raquítico, mas com uma graça concebível. Este então seguiu o comando dado por ela e veio até nossa mesa, supondo que o gesto de May sugerisse que estivéssemos prontos para pedir. Aproximando-se disse: – Boa Noite! – cumprimentando-nos – Meu nome é Charlie… – apresentou-se: serei o seu garçom esta noite. Estão prontos para pedir? – Por hora um “Mai Tai” está de bom tamanho. – exclamou May, olhando em minha direção como se esperasse que fizesse uma jogada de xadrez. – O mesmo que a moça – eu disse – não era de beber muito, não conhecia os nomes de bebidas, embora todas estivessem listadas no cardápio apresentado em nossa mesa. Nos mantivemos por horas conversando, ela me falou do tempo em que esteve fora e de suas aventuras, de como havia se noivado e, por devidas complicações, se separado. Pretendi não mergulhar em seus assuntos íntimos, então apenas a deixei que me convidasse para eles, a ouvindo, como um céu que se dispõe as estrelas que nele brilham. A agressividade de seus sentimentos explodiam a cada gole que dava em sua bebida, parecia ser um expurgo de si mesma, uma cura para uma doença sem cura. Notando isso, chamei-a para uma breve caminha; acenou com a cabeça num gesto de aprovação; levantou, pegou sua bolsa e seguimos. Mais a frente percebi que não havíamos pagado a bebida que, provavelmente, sairia do bolso do garçom que nos atendera com tanto gosto. Com isso, voltei rapidamente enquanto May me esperava e como necessário, desculpei-me por tal falta de compromisso de minha parte – embora não tenha sido intencional -, o garçom então aceitou a desculpa sorrindo, como se não se preocupasse e agradeceu, quando na verdade, não deveria. Andei em direção a saída e lá estava ela, May, com o olhar perdido no espaço, não quis me aproximar e tirar dela esse momento, entretanto, me senti na obrigação de fazer o mesmo. Mas, embora eu quisesse observá-la noite adentro, não poderia, então me aproximei lentamente, enquanto seu olhar concebia um infinito de graça ao mundo. – Olá! Estou interrompendo algo – falei, guardando uma ingenuidade no sorriso: Parecia estar longe dentro da sua cabeça. Estava pensando – respondeu May – sobre um pouco de tudo, mas precisamente sobre essa noite! Muito me foi agradável te rever. Embora você pouco tenha falado de si, enquanto eu, ah, eu… Quando a interrompi dizendo: – Você, de certa maneira, me recomeçou. Pode parecer estranho, tendo em vista de que depois de anos, essa é a primeira vez que a vejo, ambos com vidas e histórias formadas e em construção. Não tenho muito a falar, mas agradeço por isto. – Isto o quê? – perguntou May. – Isto aqui! – respondi com um pouco mais de seriedade: – essa lembrança que agora se forma, como todas as outras que se formaram horas atrás. Passava-se das 01:00 da manhã, quando depois de um longo tempo juntos, decidimos nos despedir. Chamei um táxi para ela que, sem muita demora, chegou, então a abracei tão calmamente que o tempo parou junto a despedida para nos esperar, logo em seguida May adentrou o carro que ali esparava e partiu, perdendo-se no horizonte estrelado da noite.

Illary

A paisagem é seu corpo e sua alma,
o melhor dos cenários.
Sendo o fio de luz que clareia
os túneis inabitáveis da lua.

Para sua liberdade basta o céu,
suas asas provém da força do
espírito que nasce do vento
e sopra no outono da vida.

Em ti a prece de todos os deuses.
Porque de gentil o coração roga-lhe
a cada batida uma nova oração,
e te povoa com o canto dos pássaros.

Plena mulher, entre uma flor colhida
e outra ofertada, transcende-se,
com o cristalino eco do coração,
para se tornar estrela.

Partes

Entre as pedras cortadas
com facas molhadas,
eu me perco entre a sua espuma,
entre a sua água salgada.

Eu tenho medo de cair
de todas as suas montanhas
e me ver morrer em partes
desiguais e cortadas.

Melhor, empresta-me seus lábios
e me coloque suas asas, brancas,
e deixe-me ver se é verdadeira a
esperança imorredoura.

Eu sou o sol à noite,
a lua na parte da manhã,
eu sou os contos de dragão
e eu sou a luz desligada.

Eu me tornei o meu corpo
para viajar na sua alma.
E tornei-me vento,
deixe-me correr pelos seus braços.

o reflexo no rio

A água que mata a sede é a mesma que produz lama, disse-me o homem sentado à beira do rio. Era um homem estranho, solitário, pouco se sabia sobre sua vida ou de onde viera, apenas que todas às manhãs se encontrara às margens daquele rio. Após suas palavras, que me causaram um tremor interno, perguntei-o, me aproximando: então queres dizer que, os que têm sede não sabem dicernir a água da lama? Receptivamente, deu-lhe-me, sem curvas, sua resposta: querem cometer a necessidade; não obliterá-la, eis que não tragam a lama, mas a lama cada vez mais os tragam para si. O rio corria enquanto suas palavras, em passos lentos caminhavam em meu silêncio, pesadas, esmagadoras, mostravam-me as extremidades da vida, que dançavam nos redemoinhos do rio e buscavam infinitos em meu horizonte. Imergiu, novamente, do fundo do silêncio das águas cortando às pedras, sua voz, me tirando de um transe profundo.

Por muito – disse ele, em todas às manhãs, me recolho a este local, referindo-se ao rio, aqui a sede deixa de ser urgência e passa a ser virtude, o que fomenta o espírito, não o torna vulnerável. A virtude para muitos é ter, não ser, mais vale ter ouro do que ser ouro. Aqui, onde o rio não nasce e nem deságua, onde segue seu fluxo e seu caminho, transcende; porque a sua riqueza é ser, e tudo nele é rico, a lama não o controla, pois o controle da lama em seu fundo é sua correnteza. Tendo dito isso, levantou-se e partiu para onde todos os dias partira, com passos lentos, cansados e destemidos, apresentando uma história pouco conhecida ao olhar de não-observação.

  • De volta à casa

Ao retornar para casa, suas palavras ainda me encobriam como um manto de seda. Mas, contudo, não me aconchegavam, pelo contrário, me causavam desconforto, um incômodo digno de busca, não como uma ferida que não sara quando a busca pelo remédio é massante. O estranho homem havia me apresentado a doença e a cura para minha incansável e insaciável alma, dando-me o poder sobre minhas enfermidades. Percebi que, em suas palavras, não se pode haver nada se não houver sede, mas se a sede for demasiada, tudo que venha ou havia se tornado, pode dar-se a ser solidão – de onde surge a lama, no fundo, no íntimo, no intrínseco da alma e do coração.

  • Retorno ao rio

Passaram-se alguns dias e, ainda vulnerável ao impacto que outrora haviam me causado suas palavras, retornei novamente ao rio para dizer o quão estremecedoras foram aos ouvidos de minha alma, carregava em meu rosto um ar de alegria e satisfação, porém, ao chegar lá não havia ninguém, apenas eu, o rio, às árvores e o nada. Foi o motivo para uma grande frustração, mas, lembrando que outrora havia recebido a cura e a doença, tendo sobre elas o domínio, sentei-me à margem, tal como o estranho homem fizera durante todo o ano em busca de reflexão, se ausentando do mundo para que, com isso, se aproximasse um pouco mais. Ao repetir tal ato, grande me foi o susto levado, porque, no espelho da água, percebi que era eu o homem que por muito tempo esteve sentado às margens do rio, nunca deixou de ser eu.

além da casca

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“Precisa doer para sentir além da casca”, disse ele, logo em seguida deu um longo suspiro. Não era de satisfação, tampouco de exaustão, havia nele a ebriedade de todos os verbos que o atingiram antes de se tornarem palavras, havia sentimento, emoção, loucura e, também, sanidade – havia coração. Após o suspiro, brotou um silêncio germinante, no qual nada se encontra e nada se perde, estava no deserto, cansado, faminto, sedento, caminhando entre uma miragem e outra, ilusões maléficas para o mundo perfeito, descreveu ele, mas seguia… Cansado que estava, percebeu que sono nenhum lhe livraria da existência; faminto que estava, percebeu que nenhuma pedra se transformaria em pão; sedento que estava, percebeu que nem toda água era potável, contudo, murmurou: toda batalha se inclina diante de quem sabe batalhar. O suor de seu rosto era o sangue de sua alma, era o rei e o plebeu assentado sobre o trono. Não poderia ser um se não fosse o outro, porque era preciso que conhecesse o quão generosa e virtuosa e benevolente e devastadora poderia ser a vida. Para aprender a voar, antes, é necessário saber andar.
“A casca esconde a ferida como a miragem esconde o deserto”, disse ele encerrando o silêncio que outrora germinava arduamente como uma flor de saguaro. Retomando-se, questionou sobre a superficialidade moribunda que impossibilita a vida em seu conhecimento mais profundo. Poderia o céu engolir o abismo sem que antes o alcançasse? Para tal proeza seria necessário sentir além do sentido, ver além do visível. A terra que sustenta o mar é tão firme quanto a que sustenta os passos, porém imersa num vazio sonoro e reclusa a si. Os caminhos não percorridos são os mais perigosos por levarem onde não se pode imaginar, às terras não conhecidas causam medo por guardarem conhecimentos além da ciência compreensível, era preciso para ele caminhar por esses caminhos, se aventurar por entre essas terras, suar em cada deserto por onde passasse. A solidão de seus passos o afastava do mundo e o aproximava da natureza mais intrínseca para além do concreto imprenetrante dos muros que separam a fronteira de onde termina um e começa o outro, para o coração visceral de onde nasce a intimidade nua e crua, sendo assim o mais árduo e doloroso deserto pelo qual se caminhava para chegar ao tesouro que é incumbido a quem busca, para dentro de sua alma; ele nunca esteve tão longe quanto tão perto de si, nunca foi tão íntimo e um completamente desconhecido para si, sendo assim também distante e desconhecido para os outros. Ser além da casca, para ele, era ser o abismo e o céu que outrora havia citado, era ser o deserto por onde suava, o caminho que lhe apresentava os passos, às terras que lhe davam conhecimento, era o que faltava para conhecer-se.

Precisa doer para sentir além da casca, repetiu ele, encerrando assim sua reflexão.

o amor é um ato de coragem

“Os filósofos do coração sabem quão pobre, quão digno de auxílio, quão presunçoso e apto para enganar e para destruir é o amor mais profundo e sincero.” [Friedrich Nietzsche]

O mundo não tem fome de amor, mas de quem o suporte sentir – em todos os seus dignos e indignos caminhos. Não há nada de bonito no amor, muito pelo contrário, há dor, sangue, sofrimento, isso dignifica sua legitimidade, gritam por tal sentimento e, no fundo, no íntimo, o recusam por serem repelidos pelo vício em serem servos ou senhores de si, vendo tal força como carvão, uma brasa ardente, que queima para purificar, arde para tornar vivo. O mundo carece de corajosos capazes de pensar com o coração, que acredite no amor não somente como uma benesse, mas também como um castigo, algo que nos empregue a sofrer, ai do coração que não dói, eu vos digo: fraco és, indigno és, incapaz és, moribundo és. Onde mora sua honra? Diz-se nobre, você, que não sabe sofrer?

Quando se aprofunda em tal vivência, se rompe toda e qualquer cegueira, limitância, com um querer voraz da alma, do espírito; nobre é capaz de caminhar no fogo e se queimar porque dele também provém a cura. Seria tu capaz de tal precisão de força? São perguntas que permanecem com interrogação porque não temos a resposta verdadeira e qualquer outra que proferirmos soaria como uma mentira, uma farsa, um deleite de insatisfação, um gozo – não prazeroso da verdade – para encobrir toda nossa grotesca incapacidade.

Os pobres o bastante inventam o amor para não se sentirem tão necessitados de tal proeza, amam o que lhe convém; amam o que fere, não a ferida. Por que o amor não pode ser tanto o que impunha a espada quanto o que está sendo ferido pela mesma? O que mata tanto quanto o que dá vida? Penso que a maior dignidade do amor é, não somente o sopro inebriante de felicidade, mas a honradez de se manter firme quando a dor o atinge como uma flecha banhada em chamas. “Mais amor, por favor”, talvez seja a maior hipocrisia a qual não se cansam de cometer, por não suportarem pensar em tal forma de vida. Por que não “mais coragem, por favor?”, por que não “mais força, por favor?”, por que não “mais dignidade, por favor?”. Porque seria um ato rebelde ou fora do padrão ao qual o qualificamos. Estamos centrados no antro dos covardes, puritanos incapazes, naufragados na lama que criamos para os porcos que somos e que queremos ser.

O amor existe para aqueles que o amam, em seu mais puro e voluptuoso estado de ser, me vem como uma súplica esse texto, essas palavras borradas de sangue e de alma, um carimbo de minha dor e também minha preciosidade, falo do mendigo que sou e do rico, soberbo, inútil sentado em minha poltrona, também.